“O mau cheiro da memória”

Imagem: Isabella Ruth Doefler (rawpixel)

Tenho lido sobre a timidez. Um estudo que busquei e parece ter sido endereçado a mim, em razão de a cada trecho eu balançar a cabeça, em positivo, a partir dos relatos de quem vive e viveu repleto de reservas. 

Logo no começo o estudo me ganha porque se pergunta; O porquê da timidez ser associada a um defeito? A proposta em questão é da timidez enquanto uma emoção que emerge do olhar do outro sobre o ‘eu’. 

Mais até do que isso, a versão particular do ‘eu’ sobre o  olhar do outro. Afinal, ninguém sabe o que o outro pensa, por isso criamos um ‘outro íntimo’, responsável por mediar a vida do ‘eu’ com o mundo.

Beliscando o título, o ‘outro íntimo’ quando a insegurança bate à porta é grosseiro, cheira mal e embaraça uma tarefa comum do cotidiano. Pela simples e dolorosa lembrança de uma saudação não dada, uma data de aniversário perdida, uma palavra mal colocada …

Sabe o cheiro desses momentos? Amadeirado, pesado, com notas de impotência repletas de naftalina. O que a consciência faz? Relembra sempre que é possível para evitar que continuemos. 

Esse ‘outro íntimo’, vítima de um ‘bom dia!’ não dado faz com que a relação com o outro esfrie, porque o ‘eu’ acha que esse outro o interpretou mal, mas sabe de uma coisa? Quando o ‘eu’ esquece essa lembrança e enfrenta o outro – de carne e osso –  se dá conta que nada do que foi imaginado existe, foi apenas uma invenção do ‘eu’.

Sendo a timidez uma emoção, qualquer pessoa, até a mais expansiva, vai se deparar com momentos em que a face vai enrubecer, o corpo vai tremer e o monstro do ‘outro íntimo’, da pior forma, será manifesto. A diferença vai da forma como lidamos com esses momentos.

O estudo traz dois perfis: o de um tímido contador, poeta, apelidado pela autora como Vinícius, que não vê outra saída que não a anulação de si e o isolamento contra supostas rejeições. E o do poeta Carlos Drummond de Andrade, o tímido que soube manter sua inibição no lugar em que não o prejudicasse.

Meu verso é a minha cachaça. Todo mundo tem sua cachaça.

Carlos Drummond de Andrade (1987) em entrevista que deu origem ao livro: Dossiê Drummond de Geneton Moraes Neto (2007)

Gosto e desejo alcançar o modo como o Drummond fez da sua emoção, arte que o livrou do isolamento.

Obs: título baseado no Poema Resíduo, da obra: A rosa do povo (1945) de Drummond, retirada do estudo mencionado. <link do estudo>

Pelo justo e necessário,

Lara

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